ConViver
10.10.2017 CE
Renovar a fé e a esperança

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Por Nelzilane Oliveira - Comunicadora da ACB

Antes de iniciar a reza, Dona Ana junto com os familiares e amigos assistiram ao vídeo ConViver | Foto: Nelzilane Oliveira

No terreiro muita gente se amontoa, se cumprimenta, se abraça e aguarda pela hora da renovação. O dia de reza, desta vez, é na casa de Maria Ana da Silva, no Assentamento 10 de Abril no Cariri Cearense. O primeiro convite é pra ‘janta’! Na mesa um verdadeiro banquete é ofertado para os/as amigos, familiares, vizinhos e outros convidados que estão lá para junto com Dona Ana e família renovarem sua fé. Neste 08 de outubro teve uma novidade, antes de fazer a renovação foi lançado o vídeo documentário ConViver, produzido pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). No curta-metragem, a agricultora é uma das protagonistas.

O vídeo mostra as transformações no cenário do território do Semiárido, ao longo dos últimos 18 anos, com o olhar voltado às políticas públicas de convivência. As mudanças são contadas nas falas de agricultoras e agricultores que vivenciaram o período em que o atraso e o combate à seca deram espaço à convivência e ao Bem Viver. O documentário foi gravado nos meses de junho e julho deste ano, em várias regiões do semiárido brasileiro, com depoimentos emocionantes como o de Dona Ana que aparece no documentário com seu relato cheio de sabedoria.

Após a apreciação do documentário, Dona Ana falou de sua participação nas gravações. “Fiquei muito contente com o convite. O pessoal veio aqui na minha casa não precisei sair daqui e não atrapalhou minha lida do dia. Vieram numa quinta-feira, dia que me preparo pra feira, e no dia seguinte estavam na feira. Foi muito gostoso e bom participar, ver pronto foi uma alegria tão grande, agradeço por ter participado e a ACB por me fazer participar de tanta coisa boa”, disse emocionada. No vídeo, a agricultora chama atenção para os jovens e ressalta a importância de permanecer no campo. “Minha fala foi para os jovens, pra que eles vejam que não precisa sair pra nenhum canto, que na terra da gente tem tudo sem precisar sair pra outro lugar sem trabalhar pra ninguém e ser sujeito a ninguém”, afirmou.  

No momento de debate sobre o vídeo, a agricultora contou um pouco sobre sua trajetória de vida e destacou como era difícil viver antes em terras semiáridas sem acesso a políticas públicas. “Há vinte anos atrás todos nós era pobre e passava fome. Eu cansei de ir dormir e imaginar o dia de amanhã sem eu ter o que botar no fogo. E graças a Deus através desses movimentos que a gente se engajou as coisas melhoraram”, recordou.

No alpendre da casa, todos/as se juntaram para ver Dona Ana no vídeo | Foto: Nelzilane Oliveira

Apresentar o documentário em um espaço de renovação foi inspirador, e a família de Dona Ana acolheu a todas e todos com muita alegria e satisfação, sobretudo por estarem juntos para ver o vídeo.Achei muito importante o documentário com o tema convivência com o semiárido. Por ter não só a fala dela [Dona Ana], mas como a de outras famílias e produtores rurais que trabalham no semiárido e de sua convivência no dia-a-dia. Achei muito importante a parte em que ela conta como chegou no Assentamento 10 de Abril, as participações [nas atividades] das ONG’s como a ACB e pela a ASA”, relata Cícero Danilo da Silva, 22 anos, filho de Dona Ana. Já a sobrinha de Dona Ana, Fabíola Silva Batista, disse que a experiência da agricultora é inspiradora. “Acompanho a luta dela desde que chegou aqui no assentamento. Ela é um excelente exemplo aos jovens e adultos de hoje em dia. Que todos possam se espelhar na sua história de vida”, disse.

“Tenho convivência com ela [Dona Ana], tenho um longo período de luta, porque fazemos parte da mesma caminhada. Ela como assentada e defensora da comunidade e da identidade do nordestino que é a nossa cultura, o nosso alimento o nosso modo de plantar, o nosso modo de tratar as pessoas. Como esse ato está sendo feito aqui de renovação, que raramente você ainda vê nas comunidades que é essa renovação”, disse Cícero Braz conhecido por Zé de Tetá, agricultor da Associação Rural do Baixio das Palmeiras e representante do Fórum Popular das Águas do Cariri.

Dona Ana fala com orgulho de sua participação no vídeo documentário | Foto: Nelzilane Oliveira

O documentário deixa a mensagem de que a sabedoria popular de mulheres e homens do semiárido brasileiro é enriquecedora. Em uma de suas falas Dona Ana nos deixa um de seus ensinamentos “quando ocupamos a terra nosso lema era: Ocupar, Resistir e Produzir! Enquanto eu tiver viva eu vou produzir, e vou vender, vou pra feira e vou pra todo canto que Deus permitir”, diz confiante e determinada.  Após as falas sobre o vídeo, todos/as seguiram para a sala onde aconteceu a renovação.

Entenda o que é uma renovação

As renovações foram um dos ensinamentos de Padre Cícero, tornou-se uma tradição que é mantida nas casas das famílias do Semiárido brasileiro. As renovações do Sagrado Coração de Jesus se iniciaram na cidade de Juazeiro do Norte, e simboliza o compromisso de fé da família em seguir o Evangelho em obediência ao apelo de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque.

As casas das famílias do Semiárido que seguem o catolicismo possuem em sua sala de entrada a “sala do santo”, um altar montado com imagens de santos. Desta forma uma vez por ano cada casal convida amigos e amigas, parentes e familiares, para renovarem sua fé. Geralmente a data escolhida é a data que celebra o aniversário de casamento do casal, momento em que a família pede a Deus proteção ao Lar. A celebração é realizada por ‘rezadeira’ ou ‘rezador’, com cânticos e louvores.

Confira o vídeo ConViver:

Edição: Elka Macedo/Asacom